Aulas do futebol
Por Angélica Consiglio

A cada ciclo de quatro anos, acompanhamos os avanços do futebol mundial e podemos perceber como o esporte se aproxima do mundo corporativo, e vice-versa.

Os jogos estão deixando clara a importância da estratégia, da técnica e do treinamento para o trabalho em equipe. As zebras em diversos jogos explicitam isso e provocam a reflexão sobre os altos riscos de só ter um talento por time – ou por empresa. Deveríamos ter aprendido a lição da Copa de 1998, quando o súbito mal-estar de Ronaldo Fenômeno derrubou o moral da seleção brasileira. Mas continuamos insistindo que um ou dois profissionais capacitados podem resolver tudo. Ledo engano.

Sem dúvida, a globalização acabou com a tranquilidade das empresas e das equipes futebol, abrindo novas frentes de possibilidades. Nada é certo e não existe mais time definido apenas como forte ou fraco, como demonstram as surpreendentes classificações do Panamá e da Islândia, por exemplo, e a eliminação Itália e Holanda.

Com a rapidez de compartilhamento, os exemplos ruins se propagam em um ritmo mais que acelerado, inédito na história

Na mesma linha da surpresa, as atitudes, positivas ou negativas, rapidamente ganham dimensões planetárias. As empresas já aprenderam que não conseguem mais fugir das consequências de seus atos. Os jogadores ainda não.

As tentativas de esconder os erros tapando o rosto com a camisa diante da TV e dos fotógrafos são inócuas, como se os gols perdidos, os lances violentos e as jogadas bisonhas não fossem gerar registros nos meios de comunicação e críticas, inclusive pelas mídias sociais, que forneceram as ferramentas necessárias para que as pessoas expressem suas opiniões.

A era digital marca, como um zagueiro vigilante e rigoroso, a vida dentro e fora dos gramados. Nos primeiros 15 dias desta copa, já temos 15% mais menções na Internet do que na edição passada inteira. Além disso, três bilhões de pessoas, o equivalente a 40% da população mundial, têm com acesso às mídias sociais, criando, portanto, uma vigilância muito maior de uma infinidade de ‘técnicos de sofá’, que esquecem que todas as áreas de conhecimento requerem especialistas. Tudo parece fácil quando olhamos de fora, mas os resultados dependem de talento, dedicação, experiência e muito treino.

Com a rapidez de compartilhamento, os exemplos ruins se propagam em um ritmo mais que acelerado, inédito na história. Um exemplo é o vídeo machista e criminoso protagonizado por um grupinho de brasileiros que não respeitou a divisa entre piada e ofensa ao abordar uma garota russa em um bar de Moscou. Foi decepcionante ver a atitude tíbia das autoridades diante do caso, que explicita o que todos já deveriam saber: reputação demora uma vida para ser construída e um post para desaparecer.

Como no futebol, temos a tendência de lembrar muito mais dos erros e lances perdidos do que dos momentos de sucesso. A derrota de 7 a 1 para a Alemanha chegou a ofuscar os cinco títulos mundiais que o Brasil conquistou. Messi está sendo mais lembrado por atuações apáticas defendo a seleção argentina do que pelos lances geniais que marcam sua carreira na Europa. Enfim, é necessário um trabalho planejado e contínuo para manter a reputação num patamar elevado, que minimize os impactos das crises que todas as pessoas e empresas inevitavelmente enfrentam ao longo do tempo.

Liderança é uma palavra-chave nesse assunto. Qualquer um pode ser preparado para ser líder, como mostra o rodízio de capitães promovido pelo técnico Tite. Mas é preciso tempo para desenvolver segurança nas decisões e gerar confiança na equipe. Esse processo exige equilíbrio e traz riscos que devem ser monitorados. Uma coisa é manter uma estrutura horizontal de trabalho, o que é desejável em qualquer ambiente; outra bem diferente é estimular disputa por poder, ou pior, paralisia por falta de comando.

A Copa do Mundo também nos leva a reflexões sobre um aspecto crucial para o mundo corporativo: a inovação. O árbitro de vídeo (VAR) e o chip dentro da bola reduziram a incidência de erros e garantiu mais igualdade de condições para todos os participantes. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Inovação não é apenas mensurar a quantidade de passes corretos, o tempo de posse de bola e medir desempenho no chute a gols com ferramentas de Analytics e de Big Data.

Inovar é mudar a forma como trabalhamos, como interagimos com os demais e como entendemos nossas necessidades para identificar novas oportunidades. A execução de uma bela jogada ensaiada pode ser tão entusiasmante como um drible desconcertante. Ambos podem surpreender os adversários e resultar em gol. Em comum, exigem talento e criatividade – e é isso o que torna o futebol tão apaixonante.

Vimos grandes jogos nestas últimas semanas, mas ainda nada tão inovador como ataques do Brasil com a participação de Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo Fenômeno e tantos outros. Foi a habilidade e a determinação desses jogadores que elevou nosso futebol a um patamar mais elevado. E será o engenho e a determinação que farão do Brasil um País mais desenvolvido e menos desigual.

 


Angélica Consiglio

Sócia-diretora da Planin (empresa de comunicação empresarial) e membro do board mundial do Worldcom Public Relations Group (a maior rede independente de empresas de comunicação e relações públicas do mundo).

E-mail: angelica@planin.com

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