de montador para projetista
Por Silvio Meira

a foxconn monta muita eletrônica que usamos. pra microsoft, apple, sony, nintendo, amazon, pra quem aparecer pedindo e pagando. e o padrão é alto. não fosse, não estava por trás dos três principais consoles de jogos, xBox, PS e wii. o negócio é muito grande: alguns dizem que fabrica metade de toda a eletrônica do planeta, com mais de 1.2 milhões de colaboradores e receita de quase US$118B [dados de 2011]. as margens são baixas a ponto de comemorarem, no trimestre passado, algo acima de 3%. parece um supermercado. a rentabilidade do wal-mart, por exemplo, foi 3.5% em 2011.

nos últimos anos, a foxconn comprou operações de montagem da dell, sony, cisco,… e, mais recentemente, várias fábricas da sharp [que vem muito mal] e 10.72% do fabricante de câmeras goPro, que está muito bem. as últimas aquisições levantaram sobrancelhas no mundo digital, junto com a pergunta: será que a estamos começando a ver a fusão do maior fabricante de sistemas digitais do planeta com o domínio de tecnologias únicas e a verticalização, radical, de certas áreas de competência, produtos e serviços?… goPro é “a” câmera. mas você diria, e com razão, que ela vai ralar muito até estar no mesmo nicho da nikon. pode até ser. mas será que ela precisa chegar lá? por outro lado, a sharp tem a única fábrica de displays de décima geração do planeta. tinha: agora é dela e da foxconn. ou só da foxconn, daqui a algum tempo, pois há sérias dúvidas sobre a capacidade de sobrevivência da sharp.

por quase 40 anos, a hon hai, que é o nome de batismo da foxconn, aprendeu a fabricar quase tudo o que todo mundo projeta. agora, começa a projetar coisas, a partir dos robôs que usará em suas linhas de produção, os foxbots. o pedido inicial foi de 30.000, que estão mudando a forma de montar coisas na china, tirando pelo menos 4 em cada 5 dos funcionários da montagem, de acordo com o WSJ. considerando as margens, baixas, e as reclamações, cada vez mais altas, tanto de trabalhadores como de grupos de pressão, a empresa pode ter quase só robôs em suas linhas de produção no futuro, inclusive no brasil.

na figura, o mapa das fábricas da foxconn na china. zhengzhou produz 70% dos iPhone, emprega 110 mil pessoas e gera 200 toneladas de carga por dia. não é brincadeira. a foxconn, dia destes, reclamou o projeto do iphone 5 criava mais de um problema para sua fabricação e que as encomendas estavam atrasadas por causa disso.

agora, pense: a foxconn projeta e constrói robôs de linha de montagem. faz pra si, pode fazer pra outros. a empresa detém parte da sharp; se a antiga gigante de LCDs bobear, vai virar parte da fábrica de taiwan. agora, a goPro é parte dos interesses da fábrica de terry gou, também. se quiser, pode dar um arriscadíssimo salto para desenhar o que fabrica. arriscado porque talvez competisse com seus clientes e o imbroglio legal pode matar o negócio. mas nenhum dos atuais clientes da hon hai está no negócio de câmeras. usam câmeras, mas não projetam as ditas. todos usam LCDs, mas não projetam nem fabricam LCDs. e a foxconn diz que está aumentando suas competências em sistemas que ajudam a “criar conteúdo”. então… a foxconn deve estar pensando grande, como países deveriam pensar. aliás, se fosse um país, a foxconn entraria na lista de PIBs globais na posição 57, entre o vietnã e o iraque.

se ela não pensar grande, muito grande, será sempre um apêndice das companhias pra quem trabalha. se algumas destas empresas tiverem um grande problema, lá se vai a foxconn. daí, talvez, só talvez, ela esteja pensando em ter uma estratégia dela, também, just in case. e, em função das demandas e pressões globais e locais, lá na china, just in time, também. o brasil, como país, deveria olhar mais para o que eles estão pensando em fazer, e não para o que estão fazendo, inclusive querendo fazer aqui. e tomar medidas para que nossa estratégia de TICs –e todas as outras- olhe para o futuro muito mais do que para o presente e passado.

mas será que o brasil de hoje tem a combinação de preocupações, visão, ambição e preparo de uma foxconn? ou somos apenas produtores de commodities do projeto de mundo da china? em suma, enquanto a hon hai luta, todo dia, para deixar de ser o fabricante de commodities da apple, também, a cada dia, nós nos tornamos mais dependentes da entrega de commodities agrícolas e minerais para a china? isso nos levará a que tipo de mundo, com que tipo de ganhos, e para quem?…


Silvio Meira

Fundador do www.portodigital.org e cientista-chefe do www.cesar.org.br, escreve mensalmente para a Folha de São Paulo.

 

 

 

 

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