uma SOPA, entornando o caldo da rede? [2]
Por Silvio Meira

paulo coelho escreveu um texto muito importante sobre as propostas americanas [e de muitos outros países] para restringir a liberdade na rede. "my thoughts on S.O.P.A" ["o que penso sobre SOPA"] está sob um link, http://paulocoelhoblog.com/2012/01/20/welcome-to-pirate-my-books/, mais interessante do que o título e que diz muito. coelho, que já vendeu mais de 140 milhões de exemplares, é de longe o mais lido e conhecido escritor brasileiro. escreveu o quinto livro mais vendido no mundo em todos os tempos, o alquimista, que é também o livro mais largamente traduzido de um autor vivo. não é coisa pouca, por nenhum critério.

sobre #SOPA, paulo coelho diz…

…how do I feel about this? As an author, I should be defending ‘intellectual property’, but I’m not.
Pirates of the world, unite and pirate everything I’ve ever written!
The good old days, when each idea had an owner, are gone forever. First, because all anyone ever does is recycle the same four themes: a love story between two people, a love triangle, the struggle for power, and the story of a journey. Second, because all writers want what they write to be read, whether in a newspaper, blog, pamphlet, or on a wall.

pra quem não sabe, o blog de paulo coelho é em inglês, sua audiência é global. tempos modernos. who knows, we ought to be writing this blog in english as well. bem… mas o que disse paulo coelho, acima? que há quem pense que ele deveria defender a propriedade intelectual. mas não. muito pelo contrário, ele conclama os piratas do mundo a copiar e distribuir seus livros. noutro lugar do texto, fala do site pirata onde deposita –e compartilha- seu próprio trabalho pirateado, quando acha na rede. coelho também diz que os velhos tempos, quando toda ideia tinha um dono, se foram para sempre. segundo ele, todas as estórias giram em torno de quatro grandes temas universais e o que os escritores querem, mesmo, é ser lidos. se escrevesse por dinheiro, diz, e não para dar significado à vida, já teria parado há anos, até para fugir das críticas quase sempre depreciativas ao seu trabalho.

paulo coelho defende pirataria como [parte de] um modelo de negócios, como já foi comentado aqui e como sempre foi –e é- largamente praticado em todo mundo. ao fim do texto, ele diz que…

‘Pirating’ can act as an introduction to an artist’s work. If you like his or her idea, then you will want to have it in your house; a good idea doesn’t need protection. The rest is either greed or ignorance.

…pirataria pode ser uma introdução ao trabalho de um artista. se você gosta, vai querer ter em casa. uma boa ideia não precisa de proteção. e o resto é ganância ou ignorância.

radical, não?… mas em 2009, o cantor daniel causou um grande debate ao afirmar que pirataria poderia ajudar a divulgação do seu filme menino da porteira, até em função do que havia ocorrido em 2007 com o primeiro tropa de elite, que foi o filme mais pirateado e, ao mesmo tempo, a maior bilheteria de 2007 no país. quem sabe daniel estava certo; mas a união da indústria de vídeo surtou com a declaração cantor e escreveu: pirataria não é solução e alternativa para nada. PIRATARIA É CRIME previsto em lei, ela é um câncer que deve ser combatido por toda a sociedade brasileira, mas, principalmente pela classe artística e produtora de obras audiovisuais.

na época, perguntei:

será mesmo? parece mais que a pirataria que vemos hoje [no caso do audiovisual, não vamos generalizar] se dá pela falência de um modelo de negócios baseado em distribuição de conteúdo sendo remunerado pelo preço do suporte físico. este modelo começou a funcionar lá na era do gramophone, começou a falir no tempo dos CDs, piorou nos DVDs e papocou, com calambote e tudo, quando o suporte físico se tornou irrelevante e as redes conectaram o mundo e as fontes de mídia.
no topo disso, a indústria cultural, preocupada em proteger suas fontes históricas de renda e seu legado, do ponto de vista de suporte e modelo de negócios, resolveu partir pra briga. ao invés de tentar entender o mundo.

claro que não é "toda" a indústria que sofre de cegueira cognitiva e negocial. há honrosas, criativas e lucrativas exceções, mencionadas em estudos do próprio setor. quer ver? acabou de sair um do IFPI [Digital Music Report 2012 Expanding Choice. Going Global], resumido na imagem abaixo, uma colagem de figuras do relatório, que, tomara não me renda um processo por infringir propriedade intelectual…

 sopa 1

tem tempo? clique aqui pra pegar o relatório completo. não? tome nota: a tabela a), mostra que as vendas de "álbuns digitais" de música cresceram 24% globalmente em 2011; b) diz que 71% da receita de música na china é digital, apesar de c) estimar a pirataria, lá, em 99%. por que?… pense: não deve ser fácil comprar um CD de mombojó em zh?ngji?k?u e dificilmente há um serviço de música digital que já se estruturou a ponto de prover tal oferta lá. consequentemente, não há "renda" possível na mongólia interior, agora, pra alguém estar a dizer que há "pirataria" lá. o diagrama d) diz que 32% da renda global da indústria da música gravada está online, contra 1% dos filmes, que precisam de banda larga de verdade para "passar" na rede.

aliás, qual é a velocidade média de download no planeta, observando dezenas de milhões de PCs em 224 países? meros 580K. e no brasil? miseráveis 105K. resultado? para quase todos, não se pode confiar em um serviço de streaming musical como pandora ou spotify [que não funcionam no brasil, por causa de restrições de copyright!] e pagar pela música [como muitos podem e querem fazer]. vídeo, então, nem pensar. MPAA, RIAA e seus similares mundo afora deveriam fazer uma campanha global por mais banda, de muito melhor qualidade, para todos. porque? a tabela e) mostra que, mesmo onde há banda, o uso de P2P para compartilhar arquivos caiu pela metade entre 2007 e 2010. e a "indústria"… na dela, chiando.

gabe newell, de VALVE [a galera por trás de STEAM, que administra e distribui milhares de games para milhões de jogadores] diz que…

"In general, we think there is a fundamental misconception about piracy. Piracy is almost always a service problem and not a pricing problem.
For example, if a pirate offers a product anywhere in the world, 24×7, purchasable from the convenience of your personal computer, and the legal provider says the product is region-locked, will come to your country 3 months after the US release, and can only be purchased at a brick and mortar store, then the pirate’s service is more valuable. Most DRM solutions diminish the value of the product by either directly restricting a customers use or by creating uncertainty.
Our goal is to create greater service value than pirates, and this has been successful enough for us that piracy is basically a non-issue for our company."

tradução? há um equívoco conceitual generalizado sobre pirataria [de bens digitais], que é quase sempre um problema de serviço e não de preço. por exemplo, se um pirata oferece um produto em qualquer lugar do mundo, 24×7, fácil de adquirir, pagar e levar, e o fornecedor legal diz que o produto dele só funciona por região, só estará na sua 3 meses depois dos EUA, só pode ser comprado numa loja física… então o serviço do pirata tem mais valor. e a maior parte das soluções de controle de propriedade intelectual diminui o valor do produto através da redução das possibilidades de uso e/ou aumento de incerteza. a proposta da VALVE é bater os piratas em seu próprio jogo, criando e prestando um serviço de maior valor. e temos tido sucesso o suficiente para dizer que, para nós, pirataria não é um problema.

falou e disse. há tempos, resumi uma palestra de matt mason, autor de the pirates’ dilemma, em sete pontos, tratando a coisa toda de uma forma construtiva: o que pirataria tem a ensinar pra inovação?… visto por um outro ângulo, lutamos contra os piratas ou aprendemos com eles? vamos lá.

1. quer derrotar a pirataria? copie os piratas. os piratas [jogos "originais" para consoles a R$10, com nota e garantia!] estão adicionando valor so jogadores, num clássico exemplo de falha no mercado; aprenda com os piratas e faça melhor. olhe para VALVE e, porque não, mombojó: desde o começo, tudo o que fazem está na rede e não me consta que tenham "perdido dinheiro" por causa disso. muito pelo contrário

2. negócios são uma forma de arte; arte é rebelião. as novas formas de rebelião envolvem mudança, nos levam mudar o que não está funcionando, porque os meios para tal estão [especialmente no caso de mídia] à nossa disposição. de cada um e todo mundo, aqui e agora. inclusive dos big businesses, mas eles estão perdendo tempo com o passado ao invés de construir o futuro.

3. a arte de contar histórias mudou. e de uma vez por todas. a abundância e sofisticação de novos meios abertos e globais de expressão, torna cada um o cotando em rede, das suas histórias. o grande negócio, hoje, é trazer as pessoas pra dentro da história, pra que elas nos agreguem a sua história… e vice-versa. ao invés de comunicação para disseminação de conteúdo criado de forma centralizada, o tempo é de conectividade para interação em torno das histórias nas quais todos estão interessados e para as quais podem contribuir, e não só o que quer [ou melhor, queria] o centro. o conteúdo, pra quem ainda não notou [MPAA, RIAA... alô!] se "separou" da forma, do meio e do controle central, e isso é para sempre.

4. cuidado com os advogados. em caso de dúvida sobre os seus, ligue para ronaldo lemos e pergunte o que ele acha. se seu departamento legal está tirando coisas do youTube, pode apostar que o tiro é no seu pé. ah, sim: antes de ligar pro ronaldo, pergunte pros seus advogados se eles ouviram falar de "performance"; você paga seus advogados por performance e não por direito autoral. não se toca o DVD deles defendendo um caso parecido com o seu no tribunal. eles têm que ir lá in vivo… raciocinar em tempo real, falar bonito, ter deferência e paciência com suas excelências e coisa e tal. p-e-r-f-o-r-m-a-n-c-e. músicos entendem isso muito bem.

5. abundância é a melhor propaganda e melhor do que propaganda pura, simples e antiga. ninguém diz isso abertamente, mas pirataria é, há muito tempo, parte do modelo de negócio de varejo de software. quer ver? pergunte à microsoft e outras grandes empresas; windows e office piratas sempre foram os maiores adversários de linux e open office. e há quem use auto-pirataria [?] para conquistar mercados. como? "vazam" seu próprio software em mercados onde não há renda, pra cobrar quando houver. a primeira dose, como se sabe, é quase sempre grátis.

 sopa 2

6. cinema é "muito melhor do" que TV e cobra ingresso por isso; cinema é performance, tem um custo muito maior do que a combinação de DVDs piratas e uma tela de dezenas de polegadas em casa… mas qual é a maior tela que você pode ter, em casa, pra assistir RAN, de kurosawa? a cena de cavalaria acima precisa de mais mais polegadas de boa resolução do que se pode ter em casa, para transmitir o que kurosawa queria dizer… e pra vê-la, como tal, vamos pagar um ingresso de cinema. tomara que a projeção seja muito boa, senão quero meu dinheiro de volta.

7. em economias baseadas em abundância, model de negócios têm que ser círculos virtuosos. entregue grátis aqui pra ganhar em performance acolá, lance sua música em guitar hero, faça comerciais, descubra seu "luiza, que está no canadá", se vire. acabou o tempo de ganhar a vida deitado em casa, qual nababo, ao som de uma chuva de moedinhas. a transmutação do analógico, centralizado, para o digital, em rede, é também a transformação de reais em centavos: na netflix, cada cliente de aluguel de DVD perdido, só é compensado por cinco de streaming. e eles estão tentando trocar a base toda, antes que seja tarde [como foi para a blockbuster e a kodak].

hummm… você diria, coisa de piratas. mesmo? que tal ler parte de um texto do duke law and technology review, de 2002, analisando os 10 anos do audio home recording act? ARHA foi a primeira lei, nos EUA, a relacionar tecnologia com propriedade intelectual, a criar provisões para punir a quebra [anti-circumvention] dos mecanismos de proteção e, ainda criou royalties sobre dispositivos e meios. ao comprar um CD virgem para fazer backup de arquivos pessoais, paga-se um imposto que vai subsidiar as organizações que cuidam do direito do autor [e que o autor sempre tem muita dificuldade de ver]. o texto…

Sometimes progress may feel more like loss than gain when a technology that an industry has developed a significant portion of their products around becomes outdated. While this may be a frustrating experience for those industries that are tangential to the technology, the proper solution is not to hinder progress, but instead to adapt accordingly.

diz que… há vezes em que o progresso pode parecer mais perda do que ganho, quando a tecnologia ao redor da qual uma indústria criou uma parcela significativa de seus produtos se torna obsoleta. ao mesmo tempo em que isso pode ser frustrante para tais indústrias, a solução apropriada não é atrapalhar o progresso, mas se adaptar aos novos tempos. e olha que foi escrito num jornal legal, de juristas.

quer ler um argumento bem sólido e recente sobre o mesmo assunto? david pakman acaba de desancar [em wither the giants? the arrogance of aging incumbents] o CEO da groupM [leia WPP...] irwin gotlieb, de cabo a rabo, "só porque" gotlieb disse que… we have a responsibility to ensure that technology develops in a manner that doesn’t shake up the supply-and-demand equation of our business. como assim, garantir que tudo continua como está, sem mudar as equações de demanda e oferta?… o texto de pakman é muito bom e segue a mesma linha do parágrafo anterior…

Technology forces which bring greater efficiency and transparency to markets simply don’t care about privilege, access, and rolodexes. They disrupt predecessor markets because of structural problems like price opaqueness and false scarcity that no longer “work” in the new market.

…dizendo que tecnologias que provêem maior eficiência e transparência simplesmente não levam em conta privilégio, acesso e redes de contatos e poder previamente estabelecidas. elas reescrevem o mercado porque as "qualidades" estruturais anteriores, como opacidade dos preços e falsa escasse,z simplesmente não existem no "novo" mercado. paulo coelho poderia ter escrito a mesma coisa no texto que abriu esta longa conversa.

como o leitor já percebeu muitas linhas atrás, quero escrever sobre este assunto até o fim do universo. para o bem de todos e felicidade geral da web, já passou a hora de parar e, pra terminar, vou repetir [com licença de nelsinho motta] um texto de 2009, estrelinhas, constelações e galáxias, sobre o fim dos popstars planetários e de toda a indústria que vivia deles, ao passo que emergem novas formas de entretenimento. os grifos são nossos.

A morte de Michael Jackson é um dos signos mais evidentes e dolorosos do fim da era dos popstars planetários. Até os anos 90, o poder de comunicação e difusão estava nas mãos das grandes gravadoras multinacionais. Só elas tinham o dinheiro, a tecnologia e a organização para divulgar, promover e vender seus artistas no mundo inteiro. Estratégia vitoriosa: as filiais internacionais dividiam os custos, e multiplicavam os lucros. Tão vitoriosa que logo os orçamentos de promoção e marketing superavam de longe os de produção e desenvolvimento.
Na era da internet, da tecnologia da informação, da democratização dos meios de comunicação, o efeito é a multiplicação de estrelas locais, regionais, nacionais, e cada vez menos popstars globais como Michael Jackson, Madonna ou os Rolling Stones. Esses, são história viva. Hoje, os pretendentes ao estrelato mundial competem com todos os anônimos, ou quase, com todas as pequenas e médias estrelas em ascensão em todos os cantos do mundo, que cantam na língua que as pessoas entendem, que falam de coisas que eles sentem, que têm redes de fãs na internet. Produzir é fácil, difícil é chamar a atenção do público. Está dura a vida de popstar hoje em dia.
Nos anos 70 e 80, não só da ditadura, mas do nacionalismo e do protecionismo, a música angloamericana dominava os grandes mercados e os periféricos, inclusive o Brasil, apesar de nossa fabulosa produção musical da época. Com a globalização e a internet, as previsões nacionalistas e antiimperialistas eram de que a música angloamericana, o som do Império, tomaria conta do mundo de vez, era tudo uma conspiração tecnológica para dominar o planeta.
Pura paranóia do perfeito idiota latinoamericano. Na era da informação globalizada, o jogo virou: as músicas nacionais passaram a dominar as vendas de discos. No Brasil, mais de 75% do mercado são de produto nacional, bruto ou fino. E também na China, na Índia, na Espanha, no Japão, os artistas nacionais dominam o mercado. A internet pulverizou a informação e transformou um céu de poucas estrelas muito brilhantes em novas constelações e galáxias.

falou e disse. grande nelsinho.

 ***

este texto faz parte de uma série sobre propriedade intelectual, pirataria, velhos e novos modelos de negócio, seus promotores e detratores, mais as tentativas, cada vez mais radicais, de controlar a rede e o que fazemos dela e nela. o primeiro está neste link e, se tudo correr bem, o próximo texto será o último da série, pelo menos por enquanto. até lá.


Silvio Meira

Fundador do www.portodigital.org e cientista-chefe do www.cesar.org.br, escreve mensalmente para a Folha de São Paulo.

 

 

 

 

+Artigos
O Portal EcoD é um projeto do Instituto EcoDesenvolvimento - O conteúdo está sob uma licença Creative Commons CC
Desenvolvido pela 220i | versão tradicional | versão mobile