Três caminhos sugeridos para a sustentabilidade no Brasil, segundo Carlos Nobre
Postado em Economia e Política em 07/07/2017 às 07h00 por Murilo Gitel

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“Não há dúvida de que o planeta está aquecendo", alertou o cientista
Foto: Rodrigo Lorenzon

“As mudanças climáticas não têm solução em curto prazo”. A opinião é de Carlos Afonso Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e um dos cientistas agraciados com o Prêmio Nobel da Paz (2007), por ter colaborado na produção do relatório do IPCC (Painel da ONU sobre Mudanças Climáticas) que alertava o mundo, de forma mais contundente, os riscos provocados pelo aquecimento global.

Nobre foi uma das principais atrações do Congresso Internacional de Sustentabilidade para Pequenos Negócios (Ciclos), cuja abertura foi realizada na quinta-feira, 6 de julho, no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá.  

Para o cientista, o planeta já entrou em uma nova era geológica, o Antropoceno, graças à interferência humana na Terra. “Nós estamos modificando profundamente a composição da atmosfera lançando os gases de efeito estufa com uma velocidade sem precedentes”, observou. O pesquisador lembra que, a partir da década de 1950, houve aumento do número da população vivendo em cidades, o que contribuiu para esse cenário.

“Não há dúvida de que o planeta está aquecendo. Só para se ter ideia, a temperatura média no Brasil aumentou mais de 1,5ºC entre 1901 e 2012. As emissões de gases do efeito estufa seguem trajetórias de aumento entre 3,2ºC e 5,4ºC acima dos valores da época pré-industrial. É preciso mitigação intensa e contínua para não ultrapassar o limite de 2ºC”, defendeu Nobre.

Semideserto
De acordo com o pesquisador, se o mundo deixar de conter o aquecimento global, o ciclo hidrológico no Brasil se agravará muito mais. “Nos últimos 6 anos tivemos chuvas abaixo da média. O Nordeste, em especial a região do semiárido, pode vir a se tornar praticamente um semideserto. Principalmente devido ao aquecimento global, os desastres naturais no Brasil estão cada vez mais recorrentes”, alertou.

Nobre citou que a América do Sul é o continente com maior risco de extinção de espécies (23%) atribuível às mudanças climáticas. “Isso em um cenário de aumento médio de 4ºC na temperatura global. A biodiversidade dos biomas estaria extremamente ameaçada”.

Acordo de Paris
Uma das formas de evitar que o pior aconteça, na visão do cientista, é pôr em prática as diretrizes do Acordo de Paris, tratado estabelecido em dezembro de 2015, na capital francesa, durante a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP21). Na ocasião, líderes de mais de 190 países concordaram em reduzir as emissões de gases do efeito estufa, o que evitaria, segundo estudos do IPCC (Painel da ONU sobre Mudanças Climáticas), que a temperatura média do planeta subisse mais de 2ºC nas próximas décadas, o que traria graves consequências, como escassez de água, alimentos e migrações forçadas.

“Nós não temos opção, a não ser o Acordo de Paris, que tem metas muito ambiciosas de não deixar o planeta aquecer ainda mais. Temos que reduzir drasticamente as emissões. O desafio é gigantesco, mas não podemos nos furtar a cumpri-lo”, enfatizou Nobre.

Imprevisível Trump
O cientista tirou risos do público presente, cerca de 400 pessoas, quando recordou do filme “De Volta Para o Futuro (1989)” e do desenho animado “Os Simpsons”, que “previram” a eleição do presidente dos EUA, Donald Trump, a quem definiu como “muito imprevisível”.

Recentemente, o polêmico chefe da Casa Branca anunciou que os Estados Unidos deixariam o Acordo de Paris. O governo Obama havia se comprometido com redução de emissões entre 25 e 28% até 2025. Mas sou otimista. Acredito que não vão querer perder a corrida pelas tecnologias limpas para a China. A irresponsável cegueira do presidente Trump na questão climática poderá ter um impacto grande para o planeta”, criticou.

Caminhos
Ao comentar sobre o que o Brasil pode fazer a respeito das mudanças climáticas, o cientista observou que o país estava indo bem na redução do desmatamento da Amazônia e do Cerrado até os últimos três anos, mas agora ocorre o contrário”.

Ele sugeriu três caminhos para a sustentabilidade no Brasil:

  1. reduzir o desmatamento da Amazônia;
  2. promover uma agricultura livre da emissão de carbono;
  3. mais investimentos em energia limpa.

“Não estamos dando a atenção devida à adaptação às mudanças climáticas. Há grandes oportunidades para os micro e pequenos empresários em adaptação, até mais do que em inovação, pois é uma área que recebe pouca atenção. A chave está nas soluções locais. Nós aqui fomos muito mais na direção da mitigação. Países desenvolvidos têm inúmeros esforços em adaptação. O Porto de Roterdã (Holanda) é um exemplo, pois se planejou há cerca de 20 anos para um possível cenário de elevação de nível do mar. Aqui no Brasil construímos rodovias que serão alagadas nas próximas décadas, com um tipo de asfalto que não vai resistir”, projetou Nobre.

Energia limpa
De acordo com o cientista, o Brasil não está avançando na velocidade desejada em eficiência energética, “que deverá ser 100% limpa e renovável até 2050”, a fim de evitar um aumento de 1,5ºC na temperatura”.

“A tendência para energias renováveis (principalmente eólica e solar) está na microgeração, capitaneada pelas pequenas empresas. China e Índia são um bom exemplo disso”, concluiu Carlos Nobre.

O repórter viajou à Cuiabá a convite do Centro Sebrae de Sustentabilidade.

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