Tesouros de Matarandiba: em ilha na Bahia, comunidade é protagonista em projetos de economia solidária e cultura
Postado em Empreendedorismo em 03/04/2018 às 16h55 por Murilo Gitel

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Bucólica e aconchegante, Matarandiba é um dos tesouros da Baía de Todos os Santos
Foto: Murilo Gitel/EcoD

Desponta uma manhã ensolarada no verão de Salvador. O mês é fevereiro e o calor do Nordeste brasileiro, evidentemente, marca forte presença. Nossa viagem tem início no terminal marítimo São Joaquim, na Cidade Baixa. O relógio aponta 7h. Sobre o mar de águas transparentes, mornas e calmas da Baía de Todos os Santos, a qual os tupinambás chamavam de Kirimurê (Grande Mar Interior) antes da colonização portuguesa, o ferry-boat nos conduz, por cerca de uma hora, até o terminal de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica consagrada por João Ubaldo Ribeiro. O destino é a Ilha de Matarandiba, pertencente ao município de Vera Cruz. Para chegar lá, no entanto, são mais 40 minutos de carro entre estrada de asfalto e chão batido.

A chegada na pequena Vila de Matarandiba revela uma série de surpresas singelas. Galinhas andam livremente pelas ruas de terra, acompanhadas por suas crias. Um senhor de meia idade galopa livremente em seu cavalo marrom. Donas de casa e senhores de idade lançam olhares curiosos através das janelas - sabem que visitações não são comuns. São, no total, aproximadamente 900 habitantes, cuja população vive principalmente da renda gerada pela pesca artesanal e do extrativismo das áreas de manguezais. Para ampliar a geração de renda e, ao mesmo tempo, garantir acesso à educação, cultura, tecnologia e cuidados com a saúde, a comunidade desenvolve iniciativas de economia solidária. Cooperação, ecologia e engajamento são palavras-chave para as pessoas da região, que utilizam a criatividade para superar desafios.

Um dos destaques é a Rede Matarandiba de Economia Solidária e Cultura, criada em 2007 a partir de um projeto que integra ações da Dow Brasil – empresa química presente na Bahia há mais de 40 anos – e a Incubadora de Economia Solidária (Ites), da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também conhecida como Ecosmar, ela estimula a geração de trabalho e renda, por meio de empreendimentos sociais - voltados para a produção e consumo local - e as ações de natureza sociocultural, sociopolítica e/ou socioambiental.

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Uma moeda para chamar de sua: as notas de conchas são concedidas na forma de crédito aos moradores
Foto: Dow/Divulgação

Para incentivar o uso da Concha, que equivale ao real, muitos comércios da comunidade começaram a oferecer descontos nos produtos

Concha, uma moeda própria
A Associação Comunitária de Matarandiba (Ascoma) é responsável pela criação e gestão de empreendimentos de economia solidária, sempre considerando as necessidades e anseios da comunidade local. Um dos destaques fica por conta do Banco Comunitário Ilhamar, fundado em 27 de abril de 2008. A pequenina, porém importante instituição bancária disponibiliza crédito para atender às necessidades dos moradores da Vila, mas, principalmente, a fim de apoiar os micro negócios e aqueles que desejam iniciar atividades produtivas. Depois de avaliação do CAC (Comitê de Avaliação de Crédito), o recurso é liberado, sem burocracia, em real ou na moeda social, que circula apenas na comunidade e é aceita em todo o comércio local, a Concha. O CAC é formado por dois agentes do banco, duas pessoas da comunidade e dois integrantes da Ascoma.

“O banco Ilhamar fortalece a economia local, apoiando o comerciante e o consumidor, com ações para os dois públicos”, afirma o conselheiro de Comunicação e Cultura da Ascoma, José Mário da Silva. “O Ilhamar está em articulação com a Caixa, para disponibilizar a oferta de serviços de pagamento e recebimento na comunidade. A moeda Concha, além de ser uma identidade cultural, é também um instrumento de fortalecimento da economia local, através do estímulo ao consumo consciente na comunidade”, acrescenta o conselheiro da Ascoma.

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Alguns produtos têm desconto em concha (C$) em comparação com o real (R$)
Foto: Murilo Gitel

Grande aceitação
Vanessa Santos de Jesus, agente de crédito do banco comunitário, destaca que além de fortalecer o comércio local, a Concha já tem ampliado horizontes por Vera Cruz: "Os moradores de Matarandiba também podem usar a moeda em comércios parceiros dos distritos de Barra do Gil, Tairu e Coroa". "Entre os estabelecimentos que aceitam a Concha estão lojas de materiais de construção e farmácias", reforça Rosângela Tigre da Silva, conselheira financeira da associação. 

Para incentivar o uso da Concha, que equivale ao real, muitos comércios da comunidade começaram a oferecer descontos nos produtos e, atualmente, 90% aceita a moeda social. Emitida com controle de segurança pelo banco comunitário, as notas de concha são concedidas na forma de crédito aos moradores, que pagam sem juros ou com taxas muito baixas, a depender da linha de crédito, e são utilizadas nas diversas atividades econômicas da
ilha.

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Padaria comunitária forma profissionais e atende a demanda da Vila
Foto: Murilo Gitel/EcoD

Padaria
Um dos projetos que estimula a capacitação profissional dos jovens na Vila de Matarandiba é a padaria comunitária Sonho Real. Criada em 2015, ela ajuda a suprir uma antiga demanda local: a ausência de uma panificadora na região. Gerido pela Ascoma, o empreendimento social busca oferecer produtos de boa qualidade produzidos por pessoas da comunidade, deixando assim de depender do fornecimento externo. A iniciativa é a mais procurada por voluntários que pretendem aprender um ofício. Até pouco tempo atrás, um deles era Romildo dos Santos, o popular Manuzinho (foto acima), que hoje é um dos padeiros. "Chegamos a produzir três fornadas pela manhã e também a tarde. Temos pães de sal, leite e milho", enumera o profissional. 

A padaria, que aceita pagamentos em real e também em Concha, abastece atualmente os moradores da Vila de Matarandiba e também funcionários da fábrica da Dow. "Seria inviável ter um estabelecimento como esse em Matarandiba, se o único objetivo fosse o lucro, pois a população local é pequena", pontua José Mário.

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Seu Elenor: 79 anos de idade; 50 de comércio em Matarandiba
Foto: Murilo Gitel/EcoD

Um dos primeiros comerciantes a aceitar a Concha como moeda, no entanto, foi o seu Elenor de Freitas, 79 anos, que se orgulha por ter 50 anos de quitanda em Matarandiba. "Nasci aqui neste lugar. Tenho meio século de venda. A Concha é boa para o povo. Também tem a questão do crédito oferecido pelo banco comunitário, que ajuda até mesmo a comprar gás", observa o simpático senhor. "Aqui eu vendo até no caderninho", completa, sorrindo, ao revelar que o hábito antigo do fiado, comum principalmente em cidades do interior, ainda resiste. 

Nos últimos dez anos, a Dow afirma ter investido mais de R$ 3 milhões na Rede Ecosmar. Os investimentos para 2018 ainda estão em fase de estudo, segundo a assessoria de comunicação da companhia.

Na próxima matéria da série Tesouros de Matarandiba, que será publicada no sábado (7), mostraremos como atuam o Grupo de Produção Agroecológica de Alimentos (horta agroecológica) e o cultivo familiar de ostreicultura. 

O repórter viajou a convite da Dow Brasil.

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