Saudável, orgânico e sustentável: a revolução dos millennials e a indústria alimentícia
Postado em Juventude em 23/07/2018 às 10h35 por Redação EcoD

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Alimentação saudável, conveniente e com consciência social e ambiental estão entre os principais fatores decidivos para o consumo desta geração
Fotos:Unsplash

Eles não querem ter carros, são mais solitários e acreditam que o álcool é mais perigoso do que a maconha. E, quer você queira ou não, é essa geração que irá definir o futuro da alimentação.

Não há um consenso sobre quem seria a tal da Geração Y, os famosos Millennials. Apesar disso, seus comportamentos vêm sendo monitorados há anos e ditam tendências no mundo inteiro. A definição mais aceita parece ser de que a geração compreende os nascidos entre a metade dos anos 1980 e 2000.

Alimentação saudável, conveniente e com consciência social e ambiental estão entre os principais fatores decidivos para o consumo desta geração. Segundo uma pesquisa realizada em 2014 pela Nielsen envolvendo 30 mil pessoas em 60 países diferentes, a geração Y é a mais propensa à compra de alimentos orgânicos. Enquanto 81% dos Millennials afirmam consumir orgânicos, apenas dois terços dos Baby Boomers (aqueles nascidos no pós-guerra) fazem o mesmo.

Influenciada por esta geração, a tendência de se preocupar com uma alimentação saudável é um hábito que vem ganhando adeptos

Influenciada por esta geração, a tendência de se preocupar com uma alimentação saudável é um hábito que vem ganhando adeptos. A mesma pesquisa aponta que, em todas as gerações, mais da metade dos participantes afirmam estar dispostos a pagar mais por alimentos que tragam benefícios à saúde.

Virando a mesa
“Trata-se de uma geração empenhada em apoiar um sistema alimentar menos destrutivo do meio-ambiente, que procura apoiar produtores locais e questiona a produção de alimentos ultraprocessados. A procura pelos alimentos saudáveis leva as pessoas a preferir consumir alimentos orgânicos, agroecológicos, numa tendência crescente no mundo e também no Brasil“, sugere Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura.

Sylvia destaca ainda que a geração de nativos digitais leva em consideração a opinião do círculo social ao definir o que irá consumir – e isso se aplica também aos alimentos. Assim, as pessoas desta faixa etária são também as que mais pesquisam em redes sociais antes de decidir qual produto ou comida comprar.

“No varejo, são cada vez mais comuns os alimentos sem glúten, sem colesterol, sem lactose, com redução de sódio, orgânicos, naturais, sem ingredientes transgênicos ou com menos açúcares. Surgem novas categorias que atendem aos celíacos, hipertensos, intolerantes a produtos lácteos, entre outros. Esses alimentos estão em franca expansão e apresentam uma nova dinâmica: respondem à demanda da Geração Y, chamados de ‘consumidores conscientes’ para os quais a escolha dos produtos que adquirem está ligada à saúde e ao bem-estar“, destaca Sylvia, ao lembrar que as prateleiras dos supermercados já estão se adaptando à nova tendência.

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O prato da Geração Y no Brasil
Para Ilton Teitelbaum, esses dados não retratam necessariamente a realidade brasileira. Desde 2012, Ilton lidera o Projeto 18/34, cujo foco é observar e entender o comportamento de jovens desta faixa etária. O estudo é elaborado pelo Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS.

“A sustentabilidade como um todo, e em relação à alimentação também, não chega a ser um hábito desta geração. Embora haja o interesse em consumir produtos e marcas mais sustentáveis, o jovem não tem condições de aderir a este estilo de vida porque, no Brasil, a questão financeira ainda é um problema“, lembra.

Ilton destaca que essa realidade vai mudando à medida que os jovens da Geração Y completam 30 anos e passam a ter mais poder aquisitivo. A edição de 2018 do Projeto 18/34 irá focar justamente na temática de sustentabilidade, mas a pesquisa ainda encontra-se em estágio inicial.

Segundo ele, é notável também um aumento no número de vegetarianos e veganos e uma demanda por opções mais sustentáveis, embora destaque que ainda não possui dados conclusivos sobre o assunto. Ilton lembra que, de olho nisso, até mesmo marcas de fast food vêm oferecendo opções mais saudáveis principalmente devido à “pressão dos mais jovens por uma alimentação menos agressiva” ao meio ambiente e aos animais.

Em 2013, a primeira edição com abrangência nacional da pesquisa 18/34 apontou que o principal gasto dos jovens desta geração que ainda vivem com os pais é justamente com a alimentação 

Entretanto, embora o Ibope aponte um crescimento no número de vegetarianos no Brasil e os millennials liderem as conversas sobre o assunto, é a população acima dos 55 anos a mais predisposta a adotar uma dieta vegetariana.

Em 2013, a primeira edição com abrangência nacional da pesquisa 18/34 apontou que o principal gasto dos jovens desta geração que ainda vivem com os pais é justamente com a alimentação. Apesar disso, esse fator é o primeiro a ser deixado de lado quando os jovens decidem morar sozinhos.

“Lá em 2012, uma das coisas que vimos que eram sacrificadas pelos jovens era justamente a alimentação. Quando eles saíam da casa dos pais, passavam a consumir produtos mais baratos“, comenta. Ilton conta que um dos entrevistados para a pesquisa definiu que, se antes comprava ovos, após sair da casa dos pais passou a consumir mais salsichas.

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Saúde só com conveniência
O estudo Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizado pelo Ministério da Saúde em 2016, reforça essa tendência e aponta que a geração do milênio foi a que apresentou o menor consumo de frutas e hortaliças entre todos os pesquisados.

Segundo o estudo, apenas 58% dos jovens entre 25 e 34 anos consumiam frutas e hortaliças 5 ou mais vezes por semana – e somente um quarto consome cinco ou mais porções diárias destes alimentos, conforme recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

Em contrapartida, esta foi também uma das faixas etárias com o maior consumo de carnes com excesso de gordura, presente no prato de um terço dos millennials – eles ficam atrás apenas dos jovens entre 18 e 24 anos.

Há uma valorização crescente de produtos naturais, alimentação vegetariana e experiências gastronômicas que incluam sabores de outras culturas.

Isso pode ser explicado, possivelmente, pelo orçamento limitado desta geração, como sugere a pesquisa de Ilton. Mas, se olharmos para fora, também podemos observar outra característica importante dos millennials. Um estudo realizado nos Estados Unidos descobriu que essa geração foi a que mais atribuiu uma parcela de seu orçamento para compra de alimentos prontos para o consumo, como enlatados ou comida de micro-ondas.

A tendência se repete em todas as faixas de renda e pode explicar o porquê os millennials gastam 12 minutos a menos comendo e bebendo em comparação com as demais gerações.

Raio gourmetizador
Uma pesquisa sobre os hábitos de consumo dessa geração realizada em 2016 pela Agrocluster reforça essa ideia ao apontar que esse grupo geracional prefere as marcas mais baratas ou as mais diferentes.

Realizado em Portugal, o estudo aponta tendências ligeiramente diferentes das encontradas no Brasil, embora com muitos pontos convergentes. Segundo a pesquisa, há uma valorização crescente de produtos naturais, alimentação vegetariana e experiências gastronômicas que incluam sabores de outras culturas.

De olho nisso, a Campbell’s já investiu na criação de uma linha de sopas com sabores exóticos, como “pimenta vermelha cremosa com queijo gouda defumado”, como destaca o Meio e Mensagem.

Sabe aquela tendência de gourmetizar tudo? Parece ser mesmo culpa dessa geração.

(Por Mari Dutra, do Hypeness)

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